O luto na viuvez. um preço que se paga pelo amor vivido

Progresso da leitura

Quando falamos de luto, do que falamos segundo a definição psicológica da coisa?

O luto é um processo natural, é a nossa reação diante da perda de alguém ou algo significativo para nós; a nossa reação a perda de alguém na qual havia um investimento afetivo, ou mesmo a perdas simbólicas, como um sonho ou projeto de vida. Um dos grandes pesquisadores da temática do luto, Dr. Parkes, psiquiatra que estuda sobre o luto e seus desdobramentos na vida das pessoas desde a década de 50, fala que “o luto é o preço que se paga pelo amor”.

O processo de luto é impactado por vários fatores, como as crenças, a expressão do luto naquela família e naquela cultura, a personalidade da pessoa enlutada, como ela lida e lidou com as perdas anteriores ao longo da vida. As circunstâncias da morte também importam; sabe-se que mortes repentinas ou violentas podem ser fator de risco para um luto que se complica ou se prolonga, o que significa, que de um processo natural, este, pode se transformar em um processo de adoecimento. Se há uma comorbidade, se a pessoa já trazia em sua biografia um diagnóstico de transtorno mental, como depressão, ansiedade, entre outros.

Não podemos deixar de destacar a qualidade do vínculo, a importância das relações, o que vale lembrar que relações com muitos conflitos, relações ambivalentes com sentimentos de oposição ódio-amor, podem tornar o processo de luto mais difícil de ser elaborado, pois não permitem reparações, como exemplo, pessoas que morrem quando estão com suas relações estremecidas ou distanciadas.

Cada luto é uma experiência pessoal, individual e intransponível. Mas há particularidades de gênero ou etárias?

O luto pela perda de um ente querido é um processo universal, reação natural ao fenômeno da finitude, porém, ele é também singular, porque significa a quebra, o rompimento do vínculo com aquela pessoa e a perda do mundo presumido, aquele mundo conhecido para o enlutado, internalizado por ele, que se desfaz e precisará ser reconstruído.

E o que significa ter de reconstruir o próprio mundo, sem a pessoa amada, aos 30, 50 ou 70 anos? Será que muda?

Especificamente em nossa cultura, em que falar sobre morte e luto ainda é um tabu, as pessoas podem vivenciar o processo de maneiras diferentes. É comum que homens lidem com o processo de forma mais contida, pois desde pequenos são ensinados a não expressar suas emoções, e no caso das mulheres, tem-se a permissão para reações emocionais, mas em ambos, há uma tentativa de silenciar, de dosar as expressões de dor e sofrimento, com o imperativo social de “seguir em frente”. E este seguir em frente é incorporado ao universo masculino em um espaço de tempo menor que as mulheres, que permanecem sintomáticas por mais tempo. Estudos revelam que após um ano da perda, o ajustamento social e psicológico das mulheres é pior que o dos homens, e que os homens têm maior risco de morrer por ataque cardíaco, talvez porque reprimam as expressões do luto. As mulheres buscam mais por ajuda especializada, diferentemente dos homens.

Sobre a viuvez: no que ela se difere dos demais lutos? Quais são as queixas e sintomas específicos?

No processo natural do luto, vários fenômenos são observados, como sentimentos e emoções, alterações comportamentais e prejuízos físicos e cognitivos.  Os sentimentos comuns são a tristeza, raiva, culpa, abandono, ansiedade, solidão, saudade e até anestesiamento.  O enlutado pode ter a necessidade de ocupar-se, de ter o tempo preenchido na tentativa de bloquear os sentimentos, as dores do luto.  A raiva tem relação com a impotência, a falta de controle sobre o evento da morte, e a ansiedade gerada pelo medo de perder pessoas queridas ou da própria finitude, e a culpa, esta é irracional, como se fosse possível evitar a perda. O medo as vezes toma uma grande proporção, desencadeando crises de pânico. O corpo físico também pode sofrer impacto; as sensações mais comuns são o aperto no peito, falta de ar, vazio no estômago, hipersensibilidade aos ruídos, entre outros.

Na cognição, a negação da morte como defesa, prejuízo na atenção e concentração, ou mesmo, a desorganização dos pensamentos e ruminação. O desejo de recuperar o ente querido é tão intenso que ele pode até sentir a presença física do morto, apresentar pseudoalucinações visuais e auditivas.   Os comportamentos também se alteram: o sono pode se tornar difícil pelo medo de morrer dormindo ou de estar sozinho; o apetite pode diminuir ou aumentar, acarretando perda ou ganho de peso; o enlutado pode preferir isolar-se e desencadear o sentimento de solidão.   

Especificamente, em caso de viuvez, os sintomas mais comuns são a insônia, perda de apetite e de peso, fadiga, pesadelos, sensação de pânico, entre outros. O que se observa é uma deterioração da saúde física, com dores de cabeça, tonturas, dores no peito, dores generalizadas, processos infecciosos constantes, entre outros. Em pessoas em faixa etária mais avançada, há um comprometimento da saúde física, já em viuvez em uma faixa etária por volta de 40 ou 50 anos, os sintomas emocionais e comportamentais são mais comuns como a dificuldade em tomar decisões, dificuldades com o sono, o aumento no consumo do álcool e cigarro como estratégia de enfrentamento, um quadro mais ansioso e um aumento no nível de estresse e tensão. Questões cardíacas como arritmias cardíacas, infarto do miocárdio e hipertensão podem ser precipitados pelos rompimentos das relações humanas significativas.

Como ajudar uma pessoa nessa situação – Primeiros passos

É preciso compreender que o mundo da pessoa enlutada por viuvez se perdeu, e precisará ser reconstruído. A imagem que ele tem de si mesmo, do seu papel na família e na sociedade se modificou. Há relatos em que os enlutados se referem ao ente querido como “a parte de mim que se perdeu”. Então poder trabalhar com ele estes novos papéis, entender quais as suas possibilidades para cada momento, e principalmente, quais são as suas necessidades. É fundamental a escuta e o acolhimento.

Há perdas secundárias algumas vezes, em que o enlutado mudará de casa, de hábitos, de círculo social. É preciso um olhar cuidadoso diante da fragilidade do enlutado, já que muitas vezes, este, se sente ejetado da vida, perdendo o sentido e projetos futuros. Ter o cuidado de garantir a autonomia possível do enlutado é muito importante, o que ele dá conta de realizar e no que a rede de apoio pode de fato contribuir, sendo a maior contribuição, a presença e o afeto. Ressalto a importância da previsibilidade e da rotina para que ele se sinta seguro. Nada de grandes mudanças, a menos que sejam necessárias e inevitáveis.

E quando a viuvez se dá de forma precoce – e não a mais comum, já no fim da vida. Quais são os cuidados específicos para essa etapa?

Quando a viuvez ocorre de forma precoce, em idade produtiva, em que se tem uma vida de muitos compromissos assumidos consigo e com os outros, essa reorganização será ainda mais desafiadora, em razão de uma vida prática que muitas vezes nos toma por completo.

A pessoa enlutada, poderá ter que assumir responsabilidades novas, como gerenciar os negócios da família, assumir compromissos como investimentos e dívidas que não eram suas, se tornar a única provedora, assumir sozinha a educação dos filhos e o futuro da família. Ela poderá sentir o peso do mundo em suas costas, e sem ter com quem dividir; poderá ter que adiar planos ou ter que modificá-los em razão da nova configuração familiar. Neste caso, é preciso saber que o enlutado não dará conta de tudo, ajudá-lo a organizar as novas tarefas e toda carga emocional envolvida neste processo.

Há ainda o adiamento do luto, quando a pessoa enlutada assume a nova vida, sem oferecer espaço de elaboração. O “vida que segue” cobrará o seu preço.  E tempos depois, às vezes muitos anos após a perda, os sentimentos não vividos, as lágrimas não derramadas, as palavras não ditas, provocam o sufocamento e transformam-se em sintomas como insônia, crises de pânico, raivas irracionais, embotamento emocional (quando a pessoa fica ensimesmada), solidão e perda de prazer e sentido na vida, sem que ela se dê conta que os sintomas são respostas ao seu luto não vivido e não elaborado.

Ao enlutado, conte com sua rede de apoio, peça ajuda, expresse suas emoções e sentimentos sem constrangimentos, compartilhe a sua dor com aqueles que você ama.  

Aos familiares, sejam compreensivos e atenciosos. Ofereçam tempo, colo, ouvidos. Sejam empáticos e compassivos. Observem e busquem ajuda quando necessário.

O que é relevante?

O luto não tem um tempo determinado, o luto é para sempre. Com a elaboração do luto, você conseguirá transformar a dor insuportável em lembranças e memórias de um tempo vivido, e carregará em seu coração, o ente querido.

Ao perceber que mesmo com toda a rede de apoio e recursos internos, você continua sofrendo de forma intensa, com prejuízos em áreas importantes da sua vida, procure um especialista em Luto.

O luto é um processo natural, que pode ser elaborado sem ajuda profissional, mas há lutos que complicam, iniciando um processo de adoecimento, e este sim, precisa de cuidado especializado.

Luto não se supera, luto se elabora, se vive!

Sumário

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