O luto é um processo natural que atravessa cada pessoa de forma única. Quando perdemos alguém ou algo significativo, somos convidados a reorganizar não apenas a rotina, mas também a forma como nos relacionamos com o mundo, com os outros e conosco. Não existem receitas prontas para esse percurso, pois cada vínculo é singular e cada despedida carrega nuances próprias.
O modelo Dual
Entre as diferentes formas de compreender o luto, o Modelo do Processo Dual, proposto por Margaret Stroebe e Henk Schut (1999), traz uma contribuição preciosa. Diferente das teorias que descrevem o luto como fases lineares ou tarefas a serem cumpridas, esse modelo nos ajuda a compreender que o enlutado oscila entre dois movimentos:
- Orientação para a perda: quando a pessoa mergulha na dor, sente saudade, chora, busca respostas, revê lembranças e se conecta profundamente com a ausência. É o contato com a realidade da perda e com a intensidade emocional que ela provoca.
- Orientação para a restauração: quando o enlutado se volta para a vida prática, reorganiza rotinas, assume papéis que antes não desempenhava, busca novas formas de viver sem a presença física de quem partiu. Aqui, entram as soluções para problemas concretos, mas também a construção de novos sentidos e possibilidades.
São dois movimentos: ora mergulhar na dor, ora buscar um respiro na vida que continua
A beleza desse modelo está justamente em reconhecer que não precisamos escolher entre dor ou vida. O luto se torna um processo de oscilar entre esses dois movimentos: ora mergulhar na dor, ora buscar um respiro na vida que continua. Essa alternância protege a pessoa enlutada, oferecendo momentos de alívio em meio à dor e, ao mesmo tempo, a oportunidade de se reorganizar sem negar o vínculo com quem partiu.
O vínculo contínuo
Outro aspecto importante é que o Modelo Dual valoriza a permanência do vínculo. A pessoa que morreu não desaparece da vida psíquica do enlutado; ao contrário, pode permanecer através da memória, da herança afetiva, dos rituais, das histórias contadas, daquilo que segue vivo em quem ficou.
Cada cultura, cada família e cada indivíduo vão viver esse processo de formas diferentes. O tempo dedicado à perda tende a diminuir, mas isso não significa “superar”. Como costumo dizer, o luto não tem prazo porque o amor não tem data de validade.
O Modelo Dual nos lembra de algo essencial: o enlutado não está condenado ao sofrimento eterno, mas também não precisa apagar a dor para seguir em frente.
A travessia é feita justamente no equilíbrio entre honrar a memória e abrir espaço para o futuro.
