Falar sobre suicídio nunca é simples. Cada palavra usada para tratar do tema carrega significados profundos, capazes de acolher ou ferir, de abrir caminhos para o cuidado ou de reforçar barreiras.
Durante muito tempo, o ato foi descrito com o verbo “cometer” — o mesmo aplicado a crimes e pecados. Essa herança histórica vem de épocas em que o suicídio era considerado um delito ou um pecado mortal. Embora o conhecimento científico tenha avançado, a expressão permaneceu, mantendo vivo um estigma que agrava o sofrimento de quem pensa em morrer e de quem sobrevive à perda.
O peso das palavras
O suicídio não é uma infração moral nem um crime; é um fenômeno complexo, resultado de múltiplos fatores: transtornos mentais, traumas, dificuldades sociais, condições de vida adversas, isolamento, desespero. Quando dizemos que alguém “cometeu suicídio”, transmitimos, ainda que de forma inconsciente, a ideia de culpa e de julgamento.
As instituições que atuam na prevenção recomendam substituir “cometeu suicídio” por “morreu por suicídio”. A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021) ressalta que a linguagem deve ser clara, responsável e sem estigma, porque ela influencia diretamente o comportamento de quem sofre e de quem pode ajudar.
Estigma e silêncio
Palavras inadequadas podem afastar as pessoas do apoio que precisam. Sobreviventes enlutados relatam sentir vergonha, medo ou raiva quando escutam que seu familiar “cometeu” suicídio — como se tivesse praticado um crime. Essa sensação amplia o isolamento, dificulta o luto e perpetua o tabu.
O uso de termos respeitosos, por outro lado, ajuda a criar um espaço seguro para o diálogo, favorecendo a escuta e a empatia. Pesquisas mostram que uma comunicação acolhedora pode diminuir barreiras para que pessoas em sofrimento busquem ajuda (Scavacini et al., 2020).
Acolher também é falar com cuidado
Optar por “morreu por suicídio” é um gesto ético e compassivo. Essa escolha:
- Humaniza quem partiu, reconhecendo sua dor e história.
- Diminui o peso moral associado ao ato.
- Apoia familiares e amigos, que já enfrentam sentimentos intensos de culpa, dúvida e solidão.
- Incentiva conversas mais abertas sobre prevenção, posvenção e redes de apoio.
O compromisso de todos nós
O combate ao suicídio não se limita aos serviços especializados; começa também na forma como falamos. Ao escolher palavras mais justas, reforçamos a mensagem de que ninguém deve enfrentar seu sofrimento sozinho e de que buscar ajuda é sinal de coragem, não de fraqueza.
Palavras não resolvem tudo, mas podem salvar vidas. Elas podem abrir portas para o cuidado, o acolhimento e a esperança.
Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento intenso, saiba que há ajuda disponível. No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188 ou em www.cvv.org.br. CAPS, UBS, psicoterapia e psiquiatria são caminhos importantes para apoio e tratamento.
Referências
- World Health Organization. (2021). Suicide worldwide in 2019: global health estimates. Geneva: WHO.
- Scavacini, K., et al. (2020). Posvenção: orientação para o cuidado ao luto por suicídio. São Paulo: Instituto Vita Alere.
- Fukumitsu, K. O. (2014). O psicoterapeuta diante do comportamento suicida. Psicologia USP, 25(3), 270–275.
