Quando a dor invade a vida,
parece que alguém virou nosso mundo de cabeça para baixo.
A existência — antes clara como água —
é sacudida sem aviso.
Cai glitter em nossa alma.
Mil partículas brilhantes de lembrança, amor, saudade, choque, ausência.
No início, não enxergamos nada.
A água fica turva.
O coração, desorientado.
A mente, em tempestade.
Tentamos limpar, consertar, voltar ao que era.
Queremos retirar o brilho que dói.
Queremos silêncio onde só há intensidade.
Mas o glitter não sai.
Porque o amor também não sai.
E é aí que a travessia começa.
Aprendemos — ainda que contra nossa vontade —
que algumas perdas não se resolvem pela pressa,
mas pela presença.
Então deixamos o pote repousar.
Respiramos.
Esperamos.
Sofremos.
Rezamos.
Recordamos.
Choramos.
E, devagar, o glitter começa a descer.
Ele não desaparece.
Ele se transforma em fundamento.
O fundo do pote vira solo sagrado:
ali repousam as histórias vividas,
os vínculos que nos moldaram,
os amores que nos atravessaram,
as dores que nos amadureceram.
A água volta a ficar mais clara —
não porque a perda foi apagada,
mas porque aprendemos a habitar a vida com ela.
E é nesse encontro entre dor e amor
que algo novo nasce:
um propósito.
Seguimos vivendo com brilho na memória,
ausência na carne
e sentido no coração.
Porque às vezes é justamente a perda
que nos ensina a amar mais profundamente,
viver mais conscientemente
e caminhar com mais verdade.
E assim descobrimos:
o glitter que um dia turvou nossa vida
também é o mesmo que ilumina nosso caminho.
Homenagem à minha amada Mãe, Descanse em Paz
