Os lutos femininos

Progresso da leitura

As mulheres que somos, as mulheres que deixamos de ser

Há perdas que não cabem em uma cerimônia de despedida; não há flores, velas ou abraços; não existe um momento exato em que alguém possa dizer “a partir de hoje, ela não é mais a mesma”. Algumas perdas acontecem silenciosamente, acontecem no corpo, e, ao longo da vida, o corpo feminino é atravessado por muitas despedidas.

A menstruação

A primeira menstruação, por exemplo, pode ser apresentada como um rito de passagem para a vida adulta. Mas, para muitas meninas, ela também inaugura uma nova relação com o próprio corpo, um corpo que passa a ser observado, controlado, escondido, comparado e, muitas vezes, julgado; menstruar pode significar abandonar a infância. E toda passagem carrega alguma forma de luto.

A maternidade

Mais tarde, para algumas mulheres, chega a maternidade, e talvez seja uma das maiores experiências de transformação da identidade; nasce um bebê, mas também nasce uma mãe. E, ao mesmo tempo, uma mulher deixa de ser exatamente aquela que era antes. Ela pode sentir alegria, amor, encantamento, mas também saudade de sua antiga rotina, de sua liberdade, de seu corpo, de seus silêncios, de suas noites de sono, de partes de si que parecem ter ficado temporariamente escondidas; isso não diminui o amor pelo filho, porque sentimentos não funcionam em substituição; é possível amar profundamente e, ainda assim, enlutar-se pelo que foi perdido.

Existe também o luto da maternidade que não aconteceu; a mulher que desejou ser mãe e não pôde; aquela que enfrentou infertilidade; a que viveu perdas gestacionais ou neonatais; a que precisou interromper uma gestação; a que desejou outro filho e recebeu um diagnóstico, uma impossibilidade ou uma realidade diferente daquela que imaginava. São lutos que muitas vezes permanecem invisíveis porque a sociedade tem dificuldade de reconhecer aquilo que não chegou a existir plenamente aos olhos dos outros.

Mas aquilo que foi sonhado também pode ser perdido, e sonhos também precisam de espaço para serem chorados.

A menopausa

Então, muitos anos depois, chega outra grande passagem, a menopausa. E novamente, o corpo muda, o ciclo menstrual termina e a possibilidade biológica de uma gestação termina. Mas a menopausa não é apenas uma questão hormonal, para algumas mulheres, ela representa o encerramento de uma fase da vida e o encontro com uma pergunta “Quem sou eu agora?”

Em uma sociedade que tantas vezes associa feminilidade à juventude, fertilidade, aparência e produtividade, envelhecer pode trazer perdas simbólicas importantes; o corpo que muda, a pele que muda, os cabelos, a sexualidade, a relação com o espelho; a forma como a própria mulher percebe que é percebida.

Os papéis

E existe ainda o luto por aquilo que nunca foi; a mulher que imaginou uma carreira e encontrou outro caminho, aquela que sonhou com uma família diferente, a que terminou um casamento, a que perdeu uma amizade, a que precisou deixar uma profissão, a que se tornou cuidadora dos pais e percebeu que, de repente, ocupava um lugar diferente dentro da própria família.

A mulher que os filhos cresceram e que precisou descobrir quem é quando já não é necessária da mesma maneira; a mulher que olha para trás e percebe que algumas versões de si ficaram pelo caminho. Talvez uma das maiores particularidades dos lutos femininos seja justamente essa, eles não acontecem apenas quando perdemos alguém. Acontecem quando perdemos uma identidade, um papel, uma possibilidade, um projeto, um corpo conhecido, uma expectativa, uma versão de nós mesmas.

O luto não precisa ser resolvido, precisa ser elaborado.

Elaborar não significa esquecer, apagar ou voltar a ser quem éramos, significa construir uma nova relação com aquilo que mudou.

O processo

No Modelo do Processo Dual do Luto, nos ajuda compreender que o processo de luto envolve movimentos entre a orientação para a perda e a orientação para a restauração; em alguns momentos, precisamos olhar para aquilo que abandonamos e em outros, precisamos aprender a viver na realidade que se apresenta.

Talvez seja exatamente isso que acontece tantas vezes na experiência feminina; despedimo-nos de uma mulher e, pouco a pouco, encontramos outra. A menina que menstruou pela primeira vez não desapareceu, a mulher que se tornou mãe não apagou a mulher que existia antes dela, a mulher que atravessa a menopausa não perde todas as mulheres que foi. Nós somos feitas de camadas.

Há uma menina em nós; uma jovem; uma mulher que amou; uma mulher que perdeu; uma mulher que desejou; uma mulher que se tornou mãe ou que desejou ser; uma profissional; uma cuidadora; uma mulher que recomeçou; uma mulher que envelheceu.

E talvez, amadurecer seja aprender a não expulsar nenhuma dessas mulheres de dentro de nós, porque a vida feminina é feita de chegadas, mas também de despedidas. E talvez seja preciso falar mais sobre elas, não para transformar cada mudança em sofrimento, absolutamente. Mas para reconhecer que toda transformação exige algum trabalho psíquico, toda passagem pede elaboração e toda identidade que se transforma abandona alguma coisa.

Quando damos nome às nossas perdas, deixamos de atravessá-las sozinhas.

Talvez o cuidado esteja justamente aí, permitir que uma mulher chore aquilo que perdeu sem precisar justificar aquilo que ganhou, porque não existe contradição em agradecer o que chegou e sentir saudade do que partiu.

A vida não é uma sucessão de substituições, mas uma coleção de versões de nós mesmas, e algumas delas merecem, sim, uma despedida, outras merecem apenas um abraço, e todas merecem ser lembradas, porque nos constituem.

Sumário

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