No dia 30 de março, data de nascimento de Vincent van Gogh, celebramos o Dia Mundial do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) — uma oportunidade importante para ampliar o conhecimento, reduzir estigmas e fortalecer o cuidado em saúde mental.
O Transtorno Afetivo Bipolar é uma condição psiquiátrica crônica caracterizada por oscilações significativas de humor, energia e funcionamento. Essas oscilações não se limitam às variações emocionais comuns do dia a dia — são episódios que impactam profundamente a vida do indivíduo.
O que é o TAB?
Do ponto de vista clínico, o TAB envolve episódios de:
- Mania ou hipomania: estados de humor elevado, expansivo ou irritável, com aumento de energia, diminuição da necessidade de sono, impulsividade e, em casos mais graves, prejuízo do julgamento.
- Depressão: episódios marcados por tristeza persistente, perda de interesse, fadiga, alterações no sono e apetite, sentimentos de culpa e, em alguns casos, ideação suicida.
Esses episódios podem variar em intensidade e duração, sendo classificados principalmente em:
- Transtorno Bipolar Tipo I (com episódios de mania plena)
- Transtorno Bipolar Tipo II (com hipomania e episódios depressivos mais frequentes)
- Transtornos relacionados (como ciclotimia)
Bases neurobiológicas
A ciência aponta que o TAB envolve uma complexa interação entre fatores genéticos, neuroquímicos e ambientais.
Alterações em neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina estão implicadas na regulação do humor. Além disso, estudos de neuroimagem indicam disfunções em áreas cerebrais relacionadas ao controle emocional, como:
- Córtex pré-frontal
- Amígdala
- Sistema límbico
Há também evidências de alterações nos ritmos circadianos, o que explica a sensibilidade de pessoas com TAB às mudanças de sono e rotina.
TAB não é “instabilidade emocional”
Um dos maiores desafios ainda é o estigma. O transtorno bipolar não deve ser confundido com “mudança de humor” cotidiana ou traços de personalidade.
Trata-se de uma condição de saúde que exige diagnóstico criterioso e acompanhamento contínuo.
A banalização do termo pode atrasar o diagnóstico e dificultar o acesso ao tratamento adequado.
Tratamento: uma construção contínua
O tratamento do TAB é multimodal e envolve:
- Psiquiatria: uso de estabilizadores de humor, antipsicóticos e, em alguns casos, antidepressivos com cautela
- Psicoterapia: abordagens diversas, focadas em trauma e regulação emocional
- Psicoeducação: fundamental para que o paciente reconheça sinais precoces de recaída
- Estilo de vida: regularidade do sono, redução de estímulos, manejo do estresse e suporte social
A adesão ao tratamento é um dos fatores mais importantes para a estabilidade ao longo do tempo.
O sofrimento invisível e o risco de suicídio
O TAB está associado a um risco aumentado de suicídio, especialmente durante episódios depressivos ou estados mistos.
Por isso, o cuidado precisa ser atento, contínuo e livre de julgamentos.
Falar sobre o transtorno é também uma forma de prevenção.
Van Gogh e a complexidade da mente humana
A escolha de Vincent van Gogh como símbolo desta data nos convida à reflexão.
Embora não seja possível afirmar com precisão diagnóstica retrospectiva, sua trajetória é frequentemente associada ao sofrimento psíquico intenso. Sua obra revela não apenas dor, mas também sensibilidade, profundidade e uma forma singular de perceber o mundo.
Isso nos lembra que, por trás de um diagnóstico, existe uma história, uma subjetividade, uma vida.
Cuidar é reconhecer
Falar sobre o Transtorno Afetivo Bipolar é, antes de tudo, um convite ao cuidado.
Cuidado com o outro, com o sofrimento psíquico e com a forma como compreendemos a saúde mental.
