Poucos contos da literatura brasileira carregam tanto silêncio, mistério e profundidade como “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa. Em poucas páginas, o autor mineiro nos convida a uma travessia simbólica que ultrapassa a lógica da vida cotidiana, mergulhando no inexplicável.
Na narrativa, o pai, homem simples, decide um dia encomendar uma canoa e viver para sempre dentro dela, no meio do rio. Não parte para longe, tampouco volta para casa. Ele permanece ali, habitando um espaço de ausência-presença que marca profundamente a vida do filho — o narrador da história.
Esse gesto incompreensível cria algo: a terceira margem, um lugar invisível, que não está nem na terra firme de onde partimos, nem na outra margem a que poderíamos chegar.
A terceira margem é um símbolo poderoso!
- um espaço existencial, onde o ser humano se afasta das convenções sociais para buscar um sentido maior;
- uma metáfora espiritual, que aponta para a transcendência e para o sagrado;
- um enigma psicológico, que mostra o impacto da ausência e do silêncio na vida de quem fica.
O pai, silencioso e indecifrável, não explica sua escolha. O filho, por sua vez, cresce preso a essa ausência que nunca se resolve. Ao final, já adulto, sente-se chamado a ocupar o lugar do pai, mas hesita diante do abismo do desconhecido.
Há escolhas, dores e destinos que não se explicam
Esse conto nos toca porque fala daquilo que muitas vezes preferimos evitar: o mistério da vida. Há escolhas, dores e destinos que não se explicam, apenas se vivem. A terceira margem, então, pode ser entendida como essa dimensão do indizível, onde cada um de nós se depara com o que não tem nome, mas molda quem somos.
Nem tudo precisa de resposta
Talvez Guimarães Rosa nos lembre que a vida não se sustenta apenas nas certezas das margens conhecidas. Há sempre uma terceira margem a nos interpelar — seja o silêncio de um luto, uma decisão sem volta, ou a busca por algo que ultrapassa a razão.
E diante dela, o que nos resta é o exercício da contemplação, da coragem e, muitas vezes, da aceitação de que nem tudo precisa de resposta.
